Poema antes da insônia [poema inédito, 2020]

foto: Nicolas Bruno
Vai começar
O silêncio do corpo
Interrompido
Pelo marejar das imagens
Que se precipitam ao ar
E batem como chuva
Ininterrupta
Nos arcos dos meu olhos
 
Tende a permanecer
Por algumas horas
O trabalho de escrever
Na lousa da noite
Sinais ínfimos da memória
A tatear o paredão escuro
Do tempo
Em que suas vagas estremecem
Tacitamente
Sob o dever do trânsito
E a esgrima do fluxo
- Tempo vulcânico, acho –
 
Mas não é o ínfimo
Aquilo que não conheço
Aquilo que imagino ser
Uma imensidão
Dobrada 
Em origami
Guardando em segredo
O verbo que me põe em sono?  

Cortes [poema inédito publicado no Coletivo Janga, 2019]

as inscrições nas placas 
os desvios nas ruas 
as ranhuras e fendas das pedras
a tesoura do mar 
as palavras tatuadas nos muros 
o som e suas sílabas sinfônicas 
todo o alfabeto do inesquecível 
as cascas das árvores mutiladas 
durante o frêmito do crime 
o rumor das cicatrizes 
a névoa que toma o claro de dentro 
a festa aberta da ferida 
o povo dança com suas lâminas
erguidas ao céu e resplandecidas 
de sol 
o calor do pântano 
o povo lamina o pântano 
e grita a hora de fechar a ferida 

hora de abri-la onde nunca de feriu.