Há quem diga
que no gesto tímido
de sua mão alcançando a minha
há, quente, uma estrela
começando.
Neste blog, encontram-se poemas e escritos de Marcus Vinicius, autor de "O cacto não cresceu" (Moinhos,2018) e "ontem estive cálido" (Urutau,2018).
Há quem diga
que no gesto tímido
de sua mão alcançando a minha
há, quente, uma estrela
começando.
quanto dorme um poema até que alguém o acorde para sonhá-lo?
rasgo um bilhete de amor e um pedaço de mim se apaga.
é verdade, nem o tempo me ensinou. senhor, que horas são?
é perene esta água com que nos lavamos sem nunca nos limpar?

Vai começar O silêncio do corpo Interrompido Pelo marejar das imagens Que se precipitam ao ar E batem como chuva Ininterrupta Nos arcos dos meu olhos Tende a permanecer Por algumas horas O trabalho de escrever Na lousa da noite Sinais ínfimos da memória A tatear o paredão escuro Do tempo Em que suas vagas estremecem Tacitamente Sob o dever do trânsito E a esgrima do fluxo - Tempo vulcânico, acho – Mas não é o ínfimo Aquilo que não conheço Aquilo que imagino ser Uma imensidão Dobrada Em origami Guardando em segredo O verbo que me põe em sono?

isto em que vivemos é um arfar constante uma fala interrompida o rio em falsa cor corpo entumecido duplo porque árido em lama isto em que vivemos é um peso invisível é resto em excesso.
a desolação sua é maior que a solidão da lua ou é impressão minha que a noite também vigia a precariedade dos sonhos?
as inscrições nas placas os desvios nas ruas as ranhuras e fendas das pedras a tesoura do mar as palavras tatuadas nos muros o som e suas sílabas sinfônicas todo o alfabeto do inesquecível as cascas das árvores mutiladas durante o frêmito do crime o rumor das cicatrizes a névoa que toma o claro de dentro a festa aberta da ferida o povo dança com suas lâminas erguidas ao céu e resplandecidas de sol o calor do pântano o povo lamina o pântano e grita a hora de fechar a ferida hora de abri-la onde nunca de feriu.

a voz que canta a escravidão
os pardais
parados os pardais
para ouvir em atenção.