Vulcão [poema inédito, 2019]

Ao redor do vulcão 
Duas árvores de cristal 
E minha casa de teto perfurado. 
Há corredores de tinta desbotada
Pontilhando um mapa visível 
Indecifrável.
Como o corpo que renuncia a fala 
Cansado de arbitrar.
Na minha casa tem uma sala onde reúno os poucos amigos
E lamentamos que o vinho deixou de entorpecer.
Uma varanda onde duas pessoas se conhecem 
E falam que o amor é uma piada 
Que nos faz rir gostosamente 
Que é um revezamento para lavar a louça 
Suja 
Que intercepta o caos em nossa direção  
No breve minuto de uma pausa negociada 
- Eu tenho cá um acordo com o caos porque nos reconhecemos 
Como gêmeos separados pelo acaso.
Embora eu seja mais forte do que ele -    
E no quintal haveria trecos e ferramentas
Dizem que vidros também 
Escavações variadas. Mas na casa não há quintal. 
Há um terreno em obras 
E muitos homens de costas grossas com seus cigarros. Acesos. 
Perdidos em risos que não eram de amor. 
Sem dúvidas não era de amor aquela diáfana dança de línguas. 
Eles esculpem a terceira árvore 
Ao redor do vulcão. Ignorando o silêncio da urdidura.
E ela é de cristal como as outras. 
Mas esculpidas por eles. 

Poema des-concreto [poema do livro O cacto não cresceu, ed. Moinhos]

o poema é recado de protesto para a verdade 
protesto armênio 
protesto derivado 
transmitido como telefone sem fio 
dizendo: olha, você não é lá essas coisas 
se assunte 
se aprume 
se acabe 
o inacabado 

o poema suspende a verdade lhe retira 
                                            [a outorga lhe des-emancipa
alucina seus sentidos e delira a ênfase referida
faz doer a verdade porque 
na verdade 
dor é coisa boa 
com ela a gente 
se apruma 
se assunta 
se acaba em partes 

a verdade paralelepípedo 
o poema des-integridade.