Sentimento do mundo [poema do livro ontem estive cálido, ed. urutau]

perdi o sentimento do mundo 
não lembro onde 

perdi o sentimento do mundo 
e com ele minha carteira 

perdi o sentimento do mundo
dei-me conta 
não fiz o seguro 

perdi o sentimento do mundo 
como um personagem de cinema 
embriagado 

perdi o sentimento do mundo 
ninguém mais o perdeu, somente eu 

perdi o sentimento 
como índio que encontrou a varíola

como se estivesse perdido dentro de casa 

perdi o sentimento e o mundo 
mas eles acreditam que posso reencontrá-los 

perdi o sentido
e estou como oficial sem alvará

perdi-o
pela segunda vez, digo, terceira

perdi as sensações
e com elas o assanhamento 

perdi tudo 
sentindo-me mudo 

perdi o sentimento do mundo
e passei a asfaltar ruas

perdi o sentido do mundo e do todo 
crente que a verdade em tudo residia 
fazia morada, cep e guarita

perdi, calado, a voz muda 
e era como na infância
a sela no jumento mal prendida 

perdi o sentimento do mundo 
e lembrava sedento da caneca mergulhada 
ao pote e trazendo barro 

perdi o sentimento do mundo 
perdi a aparência da realidade 
o trinco da porta da fresta 

perdi o sentimento do mundo 
por descuido 
por esquecimento 
perdi o sentimento do mundo 
ao perguntar para o guarda 
onde davam aquelas esquinas dentro de mim

de pé perdi a vista para o fundo 
como a criança que derruba seu primeiro sorvete 

perdi o sentimento 
cem vezes 
que já não era sentimento.

Marcus Vinicius


Povo [poema publicado no Jornal O Tranca Rua, em março de 2019, vol. 2 nº 3]

se eu pudesse dizer 
a palavra política

não seria em cima do
palanque onde a voz 

é eco refrigerado 
e quebra-se na metade

não seria no palácio
cujo jardim enfeitado 

fecha-se à rebeldia
do carnaval

se minha voz pudesse 
dizer política

pensaria num corpo
extraviado
do normal 

inteiro 
à margem 
cambiante 

repatriando o idioma 
dos vencidos 

propondo ao povo 
sua auto-tradução.

Marcus Vinicius 



A germinação [do livro O cacto não cresceu, ed. Moinhos]

há um incêndio em tua alma 
derretendo toda essa escuridão:
o amor o apetite a aptidão 

havia nessa terra roxa
- tua alma incendiada -
sementes magras de perdição 

germinava algo como fogo 
- espécie de caverna em combustão - 
queimando o fígado o pâncreas 
o pulmão 

esse fogo alto e querosenado em vastidão 
dissolvia sua caverna-alma 
amor 
amordaçada vegetação.

Marcus Vinicius