
quando ouvia brancos latidos
cria que eram para mim
uma prédica em segredo
como se o amor legislado em Berlim
bramasse surdo no muro alçado
ao rés do nulo jardim.
Marcus Vinicius
Neste blog, encontram-se poemas e escritos de Marcus Vinicius, autor de "O cacto não cresceu" (Moinhos,2018) e "ontem estive cálido" (Urutau,2018).

quando ouvia brancos latidos
cria que eram para mim
uma prédica em segredo
como se o amor legislado em Berlim
bramasse surdo no muro alçado
ao rés do nulo jardim.
Marcus Vinicius

desapareceu na luz branca
não viu os prédios
não ouviu o trânsito
na floresta
decidiu ser silenciosa.
Marcus Vinicius

pássaros
voando
são as letras
da palavra
liberdade
ebarmhalnado-se.
Marcus Vinicius
pequenos vagalumes
incendeiam a noite
convidam discretamente
para a árdua arte
de adestrar o fogo
arder o corpo
ter forma luzente.
Marcus Vinicius
perdi o sentimento do mundo
não lembro onde
perdi o sentimento do mundo
e com ele minha carteira
perdi o sentimento do mundo
dei-me conta
não fiz o seguro
perdi o sentimento do mundo
como um personagem de cinema
embriagado
perdi o sentimento do mundo
ninguém mais o perdeu, somente eu
perdi o sentimento
como índio que encontrou a varíola
como se estivesse perdido dentro de casa
perdi o sentimento e o mundo
mas eles acreditam que posso reencontrá-los
perdi o sentido
e estou como oficial sem alvará
perdi-o
pela segunda vez, digo, terceira
perdi as sensações
e com elas o assanhamento
perdi tudo
sentindo-me mudo
perdi o sentimento do mundo
e passei a asfaltar ruas
perdi o sentido do mundo e do todo
crente que a verdade em tudo residia
fazia morada, cep e guarita
perdi, calado, a voz muda
e era como na infância
a sela no jumento mal prendida
perdi o sentimento do mundo
e lembrava sedento da caneca mergulhada
ao pote e trazendo barro
perdi o sentimento do mundo
perdi a aparência da realidade
o trinco da porta da fresta
perdi o sentimento do mundo
por descuido
por esquecimento
perdi o sentimento do mundo
ao perguntar para o guarda
onde davam aquelas esquinas dentro de mim
de pé perdi a vista para o fundo
como a criança que derruba seu primeiro sorvete
perdi o sentimento
cem vezes
que já não era sentimento.
Marcus Vinicius
se eu pudesse dizer
a palavra política
não seria em cima do
palanque onde a voz
é eco refrigerado
e quebra-se na metade
não seria no palácio
cujo jardim enfeitado
fecha-se à rebeldia
do carnaval
se minha voz pudesse
dizer política
pensaria num corpo
extraviado
do normal
inteiro
à margem
cambiante
repatriando o idioma
dos vencidos
propondo ao povo
sua auto-tradução.
Marcus Vinicius
Os dias nascem dentro da boca
e oxidam a minha pele
como a noite que pigmenta a tarde.
O poema, língua assolada
pesado assovio
é a oxidação da gramática
o farfalhar de um corpo
plantado no tempo.
Marcus Vinicius
há um incêndio em tua alma
derretendo toda essa escuridão:
o amor o apetite a aptidão
havia nessa terra roxa
- tua alma incendiada -
sementes magras de perdição
germinava algo como fogo
- espécie de caverna em combustão -
queimando o fígado o pâncreas
o pulmão
esse fogo alto e querosenado em vastidão
dissolvia sua caverna-alma
amor
amordaçada vegetação.
Marcus Vinicius